quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Diálogo conjugal

Aptº 503


            Chegando em casa do trabalho, boa-noite, um vago beijo, e os movimentos sempre reiniciados.
                 Porém não aquela noite. Depois do cumprimento, em vez do beijo, recebeu da mulher uma luz de incompreensão.
                 -Wrts? - peguntou ela. Ou assim lhe pareceu.
             Impressão de ter ouvido mal. Repetição de tudo. E de repente a vertigem do espanto. Sim, as palavras de tantos anos não eram mais veículo. Falavam línguas estranhas. Ainda insistiram, esperando. Mas os sons que um articulava nada significava para o outro. E esbarraram no silêncio.
                 Quietos na casa da primeira vez.
            Procuraram-se pelos olhos. Ensaiaram gestos. Aos poucos, um entendimento distante se fazia, substituindo conversas.
               A casa vestiu outra rotina. Cediam o passo diante da geladeira, entretinham-se em silêncio ocupados em si, já não brigavam. Encontravam-se à noite reconhecendo gemidos, e no espaço aberto pelo não falar moviam-se fáceis.
               Mais um dia, voltando da rua, ela o cumprimentou com a antiga naturalidade. Boa noite, e estendeu o rosto para o beijo.
               Vencendo rápido o susto, ele imprimiu no rosto luz de incompreensão e: 
               -Wrts? - respondeu.


Marina Colasanti

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