Aptº 503
Chegando em casa do trabalho, boa-noite, um vago beijo, e os movimentos sempre reiniciados.
Porém não aquela noite. Depois do cumprimento, em vez do beijo, recebeu da mulher uma luz de incompreensão.
-Wrts? - peguntou ela. Ou assim lhe pareceu.
Impressão de ter ouvido mal. Repetição de tudo. E de repente a vertigem do espanto. Sim, as palavras de tantos anos não eram mais veículo. Falavam línguas estranhas. Ainda insistiram, esperando. Mas os sons que um articulava nada significava para o outro. E esbarraram no silêncio.
Quietos na casa da primeira vez.
Procuraram-se pelos olhos. Ensaiaram gestos. Aos poucos, um entendimento distante se fazia, substituindo conversas.
A casa vestiu outra rotina. Cediam o passo diante da geladeira, entretinham-se em silêncio ocupados em si, já não brigavam. Encontravam-se à noite reconhecendo gemidos, e no espaço aberto pelo não falar moviam-se fáceis.
Mais um dia, voltando da rua, ela o cumprimentou com a antiga naturalidade. Boa noite, e estendeu o rosto para o beijo.
Vencendo rápido o susto, ele imprimiu no rosto luz de incompreensão e:
-Wrts? - respondeu.
Marina Colasanti
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