terça-feira, 25 de outubro de 2011

Epifanias - Parte I

"Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não queria que fosse assim. Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles não me deixam, você não me deixa"



Caio F

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Um Andróide sem par

Não sei se porque em algum momento desisti dos outros que agora tenho a impressão de que desistiram de mim. Só sei que parece que quanto mais conhecemos uma pessoa mais estamos propícios a nos decepcionarmos. Uma pena. Porque eu também estou desistindo de mim. Não de um todo. De uma parte. Eu não estou conseguindo seguir em frente com coisas que eu realmente não me envolva. Coisas que não nasci pra fazer. Estou chutando o pau da barraca mesmo pela primeira vez sem dó em nome do meu bem-estar. Tento manter o equilíbrio. Eu estou um saco, um caco espalhado, dividido, fragmentado demais e questionando sobre tudo! Quem são esses amigos de fato? Me encontro numa fase bem crítica da minha vida, e cadê as velhas pessoas que falaram que me ajudariam quando eu mais precisasse? Tá, eu sei. Cada um está cuidando do seu mundinho e fazendo a faxina na própria bolha. E eu? É excesso de carência ou egoísmo extremo? Seja o que for, eu estou bem aqui fora. Puro olhar distanciado, mas o andróide dentro está bem só... Bem triste... Esperançoso também, mas não bem. É tanta dor, tanta solidão que a tentativa de me descrever não chega a quem escuta. Vira piada. Talvez eu devesse dar atenção às pessoas certas. Eu estou bem (eu estou bem, eu estou bem...). Bem só... Bem só... Não bem... Muito só. 

Juão Nin 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

À meia-noite

                                                   Amanhã à meia-noite volto a nascer. Então, brindemos à vida – talvez seja esse o nome daquele cara, e não o que você imaginou. (Caio F.)



              Hey baby, senta aqui, me deixa te falar. Sabe, eu tenho senso de urgência. Aquele senso de urgência de algo. Um corpo quente, um cheiro inebriante, um olhar intenso, denso. Algo extremamente envolvente que me dilacere os sentidos, me deixando completamente inerte. Algo transcendental, e revigorante. Sim, revigorante. Apaixonadamente revigorante. Aquela sensação gostosa de que o mundo poderia acabar ali mesmo, naquele instante.
              Há muito não tomo esse drink, e há muito não sentia essa distância cósmica entre a emoção e a razão. É que eu já não mais dispunha de qualquer sentimento doce, e ser racional me parece um tanto quanto inteligente. Já te falei que acho inteligência afrodisíaca? Pessoas inteligentes me tiram do sério. Yeah baby, pessoas envolventes e inteligentes. E ser sentimental meu caro, está fora de moda. É meio down, doloroso. Já não quero mais ser assim. Não me faz falta ser assim. Prefiro aflições cotidianas como a cotação do dólar, ou qual vestido usarei na próxima reunião.
             Pensando bem meu bem, tu poderias me aparecer na próxima reunião. E eu imitaria aquela cena clássica do cinema, com aquela atriz loira famosíssima cujo nome não me recordo agora. Enfim, faria igual à loira do cinema. Cruzaria minhas pernas envoltas em um vestido básico preto ultra sexy lentamente. E faria isso só para te desconcertar. Ou talvez não. Talvez não te fizesse nada. Não é tão legal assim brincar com você. Você é capaz de amar, e nós não sabemos quantas vezes um coração pode ser destroçado e continuar batendo. 
            Vem cá querido, chega mais perto. Tenho mais coisas a te contar, como por exemplo, as teorias que crio para os escuros embaixo dos meus pés. Naquelas noites de total tormenta, basta fechar os olhos e me imaginar em meio a tempestade e consigo desmanchar o olho do furacão. E não, eu não estou atordoada. Por favor não pense isso de mim. Esse drink não faz efeito, nem sequer me faz esquecer. Provavelmente nenhuma garrafa inteira do melhor vinho disponível aqui surtaria efeito. Nem você me faz efeito. 
             Ah! Está me batendo aquela vontade de te beijar e sentir seu cheiro. Eu tenho muitos planos. Na verdade, não tenho nenhum. Nenhum plano para conseguir saciar essa sede de te ter. Então querido, relaxa. Não vou te seduzir. Ambos somos adultos e não gostamos de chantagens ou aproveitamentos de situações debilitadas. Mas imagino sua boca em contato com a minha soltando seu ar quente de hálito fresco, calmaria desmedida, refúgio e além, enquanto esta desce pelo meu pescoço e me enche de beijos. Pura fantasia. Estamos cientes, mesmo depois destes cinco ou seis copos vazios, do nosso medo de ter medo desta nossa paixão que não foi recíproca, simplesmente nos tome esta noite.
             E não olha pra mim e não sorri. Seu sorriso também não vai ter influências em meu corpo, nem gerar endorfinas ou qualquer outro hormônio que me faça sair daqui agora e ter você. Seria necessário muito mais baby. Apesar de toda a imaginação de agora a pouco, seria necessário muito ainda. E saiba que eu vou te contaminar com meu perfume viciante, contagioso, venenoso, mortal. Meu cheiro vai ficar impregnado nas paredes de suas lembranças. Vai te perturbar por um longo período de tempo. Absurdamente atormentante. Eu vou adorar imaginar seu rosto se contorcendo ao lembrar de mim. Mas você? Me diz aí o que achas que vai ocorrer a mim quanto a você? Eu te respondo meu bem: Nada! Claramente nada. Sua companhia não se faz tão importante ao ponto de ser inesquecível e latente. Vou te perturbar a cabeça. Nós sabemos disso. Fato.
            Olha, o garçom se aproxima. Creio que ele já tenha percebido esses olhos vazios. Pedirei a ele que ponha Damien Rice para cantar agora. Talvez ao ouvir o refrão ele entenda que estes olhos estão vazios por não conseguir parar de te olhar. 
            Mas afinal, vejam só. Já estou entrando em contradição. A pouco defendia o fato de já não sentir nada. E me bastou 1/3 da noite ao seu lado para perceber que o que faz parte da gente, bem no íntimo, no ínfimo, nunca nos abandona. Porém, eu vou levantar, erguer a cabeça e sair, rumo a um futuro que, sabe-se lá qual vai ser, mas vai ser. Há de haver. Seja o que for. 
           De repente, vou mesmo alçar vôo daqui. Sairei em meio a multidão que sai de bares e baladas em busca de uma noite cheia de amor, esbarrando em todos os seus sentimentos, me sentindo viva por saber que, ao sair de seu contato lastimável, voltarei a abissal distância de nossos corpos que traduzem-se na real distância entre o racional e o passional dentro de mim.
           Fica bem e cuidado na esquina. Depois da meia-noite, nunca sabemos o que nos pode acontecer. Aponta pra fé e rema, afinal, a vida sempre continua. E se precisar escolher um caminho, escolhe o da esquerda, pois no da direita, de tão certinho que é, há solidão na espreita.