domingo, 27 de março de 2011

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ONTEM
Demonstrações expansivas de afeto não me fazem bem! Elas me traem, me enganam e me machucam. Me livro e elas me retomam. E quando corro de mim, corro pra me esconder, mesmo sem saber ao certo qual o motivo dessas fugas. Levo muita bagagem nas minhas emoções, paredes, versos e canções, distraindo aflições, encerrando provocações, mantendo especulações, abafando gritos e muito ardor com a total sensação da certeza de como você vai me doer. E sempre, sempre me sobra esse nó no peito que não consigo desatar nem desmanchar nas minhas fantasias escapistas. 

HOJE
Agora, depois de tantos choros e arrasos, consigo ficar defronte ao espelho e enxergar uma enorme capacidade de superação. Me olho e te vejo no âmago do meu ser e percebo que finalmente, após tantas análises, você está horrível! Não condiz mais com o retrato exposto na minha mente por tanto tempo. Agora jaz sem razão, repleto de sofreguidão, não tomas mais meu coração para ti. E eu descubro que não queria te fazer mal. Eu não quero me fazer mal. Não quero nada além de providências cuidadosas pra que você suma e não me volte mais.

segunda-feira, 21 de março de 2011

A Matilde Urrutia



Senhora minha muito amada, grande padecimento tive ao escrever-te estes malchamados sonetos e bastante me doeram e custaram mas a alegria de oferecê-los a ti é maior que uma campina. Ao propô-lo bem sabia que ao costado de cada um, por afeição eletiva e elegância, os poetas de todo tempo alinharam rimas que soaram como prataria cristal ou canhonaço. Eu, com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância e assim devem alcançar teus ouvidos. Tu e eu caminhando por bosques e areais, por lagos perdidos, por cinzentas latitudes recolhemos fragmentos de pau duro, de lenhos submetidos ao vaivém da água e da intempérie. De tais suavíssimos vestígios construí com machado, faca, canivete, estes madeirames de amor e edifiquei pequenas casas de 14 tábuas para que nelas vivam teus olhos que adoro e canto. Assim estabelecidas minhas razões de amor, te entrego esta centúria: sonetos de madeira que só se levantaram por que lhes deste a vida. [Outubro de 1959]

Belíssima dedicatória de Pablo Neruda à sua senhora Matilde Urrutia. 
Nesse pequeno espaço, dedico a minha doce amiga Ana Emília, já que foi a mesma que me fez apaixonar por esses versos. 

sexta-feira, 18 de março de 2011

And I want you now

 Hysteria 
'          Muse
Isso está me aborrecendo
Me irrintando
E me torcendo todo

Sim, eu estou infinitamente
Desmoronando
E virando do avesso

Porque eu quero agora
Eu quero agora
Dê-me seu coração e sua alma
E eu estou me libertando
Eu estou me libertando
Última chance para perder o controle

Sim, isso está me envolvendo
Me modificando
E me obrigando a lutar
Para estar infinitamente
Frio por dentro
E sonhando que estou vivo

Porque eu quero agora
Eu quero agora
Dê-me seu coração e sua alma
E eu estou desabando
Eu estou me libertando
Última chance para perder o controle

E eu quero você agora
Eu quero você agora
Eu sinto meu coração implodir
E eu estou me libertando
Escapando agora
Sentindo minha fé se corroer

Quem vai dizer tchau?


"A gente não percebe o amor que se perde aos poucos sem virar carinho
Guardar lá dentro o amor não impede que ele empedre mesmo crendo-se infinito
Tornar um amor real é expulsá-lo de você pra que ele possa ser de alguém"

(Nando Reis)


Fanatismos

        Agir passionalmente, geralmente te enquadra como uma mulher tola que se destrói ao invés de edificar seu lar. Mas, como ser sábia diante da paixão?
         Viver uma paixão pura, sem conflitos, regada a carinhos, beijos e desejos talvez seja tudo o que se deseja nos sonhos mais profundos e intensos. Como também desejamos controlar todos os sentidos e emoções referentes a aquele que seria responsável pela nossa dissimulação. Mas nunca nos conformamos com o objetivo alcançado. Principalmente quando se passa a ser manipulado por aquele a que você se detém. Como aceitar que após anos de barreiras e opiniões solidificadas você não sabe mais como como agir, como se controlar ou até como manipular aquilo que lhe pertence? Como aceitar que após anos de clausuras e abstinências de emoções avassaladoras , doentias e intensas você finalmente se deixou vencer? Aí vem a questão: assumir que perdeu pra um sentimento fugaz, que agora nada mais faz sentido e tudo o que você quer é aquele cheiro inebriante e o toque do corpo que entra em contato com a pele exposta e faz o corpo tremer? Que sabe sim, que ainda se pode cortar tudo isso pela raiz e voltar a ser o iceberg tão conhecido de outrora. Mas sabe também que se pode permitir viver tudo isso, e até com a intensidade devida, já que não há mais cortes nem vergonhas, embora doa quando se lembra que assim estará sujeita a um vil golpe pelas costas, fazendo evaporar a felicidade e trazendo à tona noites inteiras de prantos derramados.
         Conflitos tão transversais só diz respeito a quem deveras sente. E ao interior, ao íntimo do ser que não se conforma em não ter uma ideia fixa e formada diante de caos amorosos. Como? Digam como continuar essa paixão com todas as ações e reações, e carinhos, e cumplicidade e alegria tida até então se mantendo dona de si, do seu corpo, do seu pensamento, do seu desejo que antes era tão egoísta e agora quer se doar a um corpo que não sabe se é recíproco? 
         Preocupa-me meu bem chegar a não ter mais o controle da minha vida em minhas mãos e me sentir assim tão vulnerável as fugas. Eu compreendo até o que se passa, mas não aceito! Já até suponho que o desfecho de histórias assim se dão quando a paixão acaba, pois é isso mesmo, paixão! Não se pode dizer que há amor quando este não vem de ambas as partes! Pena saber qual parte envolvida se  machucará só em ficar frente a frente ao espelho.
         E por aí se vai a vida. cheia de atos assumidos, sem cobranças da parte amada, atrevendo-se simplesmente a pedir que se mantenha lealdade a paixão ou amor que foi citado enquanto existiu. E por consequência, enchemos os céus de preces afim de que o Senhor acabe com o fanatismo que nos domina. 
         

Aquele sorriso

            Abriu os braços devagar e se entregou a algo que estava por brotar, ali, naquele momento. Ilumina, iluminará, sempre e sempre aquele sorriso. Como não se apaixonar por alguém que já domina assim, meio que inconscientemente o amor, e o transborda para que possa tomar conta do ser amado? Veio então, sem explicação, uma certeza imensa de que, apaixonados, entregaríamos sim, todos os nossos sonhos, medos, alegrias, desejos e decepções a cumplicidade dessa nova vida a dois. Uma vida tão gostosa, saudável, repleta desse novo amor. Tão cheia de nós, de calor, de carinho, de sorrisos.
           Hoje somos donos do que hoje não a mais. Do olhar pra um horizonte sentindo o beijo na mão entrelaçada com tanto cuidado pra não escapar o momento e não nos mantemos atentos para perceber as mudanças que ocorrem nos tornando mais dependentes e inversamente autossuficientes. Donos do olhar do outro que no seu íntimo, pergunta calado o que o outro tem que prende tanto. Escondendo os pensamentos que sem se notar já se faz perceptível no sorriso, naquele sorriso, concretizando certezas a tempo acendidas: "Você me faz tão bem".
          O vejo nas paredes da minha mente tão congestionada, e, ao se expor de frente com meu embaraço, exagero nos meus versos, e você já sabe que eu te quero. E eu sei que você quer viver ao lado meu, até não nos caber mais. E nos dias de saudade, você também aparece por lá, nas mesmas paredes, sem noção da falta que faz seu olhar.
          Não precisamos de palavras fáceis que não nos traga dor, nem daquele amor seco, sem lágrimas. Só precisamos um do outro, na medida exata. Aquela medida que sentimos quando você abriu os olhos e sorriu pra mim.