sábado, 27 de agosto de 2011

Seize the night, gury



É pra você que escrevo. Mas os escritores vezenquando não são fiéis. As pessoas os amam pelos sentimentos que os mesmos matam.


Estava procurando meus livros de Caio F. Precisava avidamente respirar o Caio. Olhei para a capa de “Pequenas Epifanias”. Recordei tudo. Devorei contos. Me deu vontade de escrever. Escrever especificamente, na verdade. Tenho esse hábito. Escrevo para quem entra no meu círculo e torna-se especial.
Não quero palavras poéticas. Quero traduções organizadas do que quero te dizer. Imaginar você tocando a tela ao se perder nisso aqui que mais parece um labirinto de idéias. Decido, escrever-te-ei. Assinarei só para você, como Valentina, para combinar com seu nome de origem espanhola. E colocarei também um local falso. O nosso local. Será nosso segredo.
Então, bem no alto dessa estranha natureza, no meu quarto, aumento ao máximo o volume do meu aparelho de som portátil, encaixando bem os fones, para que o agudo solo da guitarra mais alternativa arrebente os tímpanos, os meus, só.
Mais nítido, no entanto esguio, você me apareceu – e clack -, o desmontei guardando-o, ou melhor, escondendo-o na caixa de Nescau cereal que estava a comer. Porque queria guardar a sensação. Pronto, falei.
Está frio, sabe? A noite está fria agora. Penso em coisas absurdas produzidas pelo frio. Imagino um penhasco. Uma praia paradisíaca. Tanto faz. Sinto a chuva limpando-me, lavando-me as impurezas, retirando as energias negativas. Banho de mar também é bom pra essas coisas. Dizem. Enfim.
Estou tão absorta nisso que esqueço que estava à espera do som do telefone tocando. Ou a espera do som de uma mensagem súbita com alguém pedindo pra conversarmos futilidades diárias a fim de fugir da solidão convencional por alguns instantes. Penso que, ao invés de esperar, poderia ligar. Se eu ligasse, eu iria te falar tanta, mas tanta coisa. Iria falar das cartas do tarô e dos meus dez destinos mais prováveis como sugere os ‘Móveis’. Talvez não te fosse interessante. Porém, me é interessante ouvir o cara cantando “me-acenou-um-beijo-de-paz-virou-minha-cabeça” e lembrar nossas conversas, raras-intensas aparições.
No ponto alto do meu devaneio, aqui, enquanto te escrevo, entrelaço palavras, trocadas de forma sincera, obtenho resultados, extraio o necessário, enxugo o que convém. Detidamente. Pois quando conversamos, o teu momento passa a ser o meu instante. E Se você se sentir apunhalado agora por essas palavras, é porque é para você, para você que escrevo. Sem mais. Confio.
Acho que não dissertei tudo o que queria. O que você queria. Expus o necessário na ocasião. Ah! Olhar as ruas enquanto observamos pessoas é um programa que se faz com quem nos cativa. Não tinha te falado disso ainda? Perdoe minha memória. Mas é bom que eu tenha mistérios para que alguém os quebre, como quando alguns foram quebrados no momento em que o som do silêncio foi cortado pela sua ligação.
E só pra constar, quando contava os quadrados da calçada naquela noite, senti a responsabilidade do afeto surgido, e a noite olhando profundamente para nós.


Valentina

Machu Picchu, 25 de agosto de 2011

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Diálogo conjugal

Aptº 503


            Chegando em casa do trabalho, boa-noite, um vago beijo, e os movimentos sempre reiniciados.
                 Porém não aquela noite. Depois do cumprimento, em vez do beijo, recebeu da mulher uma luz de incompreensão.
                 -Wrts? - peguntou ela. Ou assim lhe pareceu.
             Impressão de ter ouvido mal. Repetição de tudo. E de repente a vertigem do espanto. Sim, as palavras de tantos anos não eram mais veículo. Falavam línguas estranhas. Ainda insistiram, esperando. Mas os sons que um articulava nada significava para o outro. E esbarraram no silêncio.
                 Quietos na casa da primeira vez.
            Procuraram-se pelos olhos. Ensaiaram gestos. Aos poucos, um entendimento distante se fazia, substituindo conversas.
               A casa vestiu outra rotina. Cediam o passo diante da geladeira, entretinham-se em silêncio ocupados em si, já não brigavam. Encontravam-se à noite reconhecendo gemidos, e no espaço aberto pelo não falar moviam-se fáceis.
               Mais um dia, voltando da rua, ela o cumprimentou com a antiga naturalidade. Boa noite, e estendeu o rosto para o beijo.
               Vencendo rápido o susto, ele imprimiu no rosto luz de incompreensão e: 
               -Wrts? - respondeu.


Marina Colasanti

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cidade do México, 12 de setembro de 1939

Minha noite é como um grande coração batendo. São três e meia da madrugada. Minha noite é sem lua. Minha noite tem olhos grandes que olham fixamente uma luz cinzenta filtrar-se pelas janelas. Minha noite chora e o travesseiro fica úmido e frio. Minha noite é longa, muito longa, e parece estender-se a um fim incerto.Minha noite me precipita na ausência sua. Eu o procuro, procuro seu corpo imenso ao meu lado, sua respiração, seu cheiro. Minha noite me responde: vazio; minha noite me dá frio e solidão. Procuro um ponto de contato: a sua pele. Onde você está? Onde você está? Viro-me para todos os lados, o travesseiro úmido, meu rosto se gruda nele, meus cabelos molhados contra as minhas têmporas. Não é possível que você não esteja aqui. Minha cabeça vaga errante, meus pensamentos vão, vêm e se esfacelam. Meu corpo não pode compreender. Meu corpo quer você. Meu corpo quer esquecer-se por um momento no seu calor, meu corpo pede algumas horas de serenidade. Minha noite é um coração de estopa. Minha noite sabe que eu gostaria de olhar você, acompanhar com as minhas mãos cada curva do seu corpo, reconhecer seu rosto e acariciá-lo. Minha noite me sufoca com a falta de você. Minha noite palpita de amor, amor que eu tento represar mas que palpita na penumbra, em cada fibra minha. Minha noite quer chamar você, mas não tem voz. Mesmo assim quer chamá-lo e encontrá-lo e se aconchegar a você por um momento e esquecer esse tempo que martiriza. Meu corpo não pode compreender. Ele tem tanta necessidade de você quanto eu, talvez ele e eu, afinal formemos um só. Meu corpo tem necessidade de você, muitas vezes você quase me curou. Minha noite se esvazia até não sentir mais a carne, e o sentimento fica mais forte, mais agudo, despido da substância material. Minha noite se incendeia de amor. São quatro e meia da madrugada. Minha noite se esgota. Ela sabe muito bem que você me faz falta e toda a escuridão não basta para esconder essa evidência. Essa evidência brilha como uma lâmina no escuro. Minha noite quer ter asas para voar até onde você está, envolvê-lo no seu sono e trazê-lo até onde estou. Em seu sono você me sentiria perto e seus braços me enlaçariam sem você despertar. Minha noite não traz conselhos. Minha noite pensa em você, sonha acordada. Minha noite se entristece e se desencaminha. Minha noite acentua a minha solidão, todas as minhas solidões. O silêncio ouve apenas minhas vozes interiores. Minha noite é longa, muito longa. Minha noite teme que o dia nunca mais apareça, porém ao mesmo tempo minha noite teme seu aparecimento, porque o dia é um fio artificial em que cada hora conta em dobro e, sem você, já não é vivida de verdade. Minha noite pergunta a si mesma se meu dia não se parece com a minha noite. Isso explicaria à minha noite por que razão eu também tenho medo do dia. Minha noite tem vontade de me vestir e me jogar para fora, para ir procurar o meu homem. Minha noite o espera. Meu corpo o espera. Minha noite quer que você repouse no meu ombro e que eu repouse no seu. Minha noite quer ser voyeur do seu gozo e do meu, ver você e me ver estremecer de prazer. Minha noite quer ver nossos olhares e ter nossos olhares cheios de desejo. Minha noite é longa, muito longa. Perde a cabeça, mas não pode afastar de mim a sua imagem, não pode fazer desaparecer o meu desejo. Ela morre por saber que você não está aqui, e me mata. Minha noite o procura sem cessar. Meu corpo não consegue conceber que algumas ruas ou uma geografia qualquer nos separe. Meu corpo enlouquece de dor por não poder reconhecer no meio da minha noite a sua silhueta ou a sua sombra. Meu corpo gostaria de beijá-lo em seu sono. Meu corpo gostaria em plena noite de dormir e, nessas trevas, ser despertado com os seus beijos. Minha noite não conhece hoje sonho mais belo e mais cruel do que esse. Minha noite grita e rasga os seus véus, minha noite se choca contra o próprio silêncio, mas meu corpo continua impossível de ser encontrado. Você me faz tanta falta, tanta. E suas palavras. E sua cor.

Tua Frida


(a Diego Rivera)


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O Príncipe da Rosa





A Rosa surgi no mundo do principezinho, egoísta e vaidosa, e o toma para si,  aos poucos. Como um grande amor. Avassaladoramente, lentamente. A rosa queria que o principezinho ficasse com ela pra sempre. Mas amores vêm e vão. Necessitam dessa liberdade transitória para serem percebidos, real sentido. Cheia de medo da perda, fingi outros medos para requerer proteção ao amado, que por sua vez, quer buscar novos horizontes. Partida decidida, a rosa arrepende-se, e, orgulhosa, pede ao pequeno que se vá antes de vê-la chorar. Conforma-se. "É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas".

Sabemos que sempre partimos, mas a distância não nos tira aquilo que julgamos nosso, deixando assim, saudade.

"(...) É bem complicada essa flor!(...) Todos os amores são complicados! E mesmo sabendo de todos os erros, consequências e decepções, amamos. Sequer enxergamos os espinhos que a flor tem para se proteger, e enxergando-a fraca, caímos mais uma vez apaixonados. E longe, a saudade no faz perto, perto de tal forma que a lembrança ávida nos tortura, medo nos domina. 

E se os espinhos não forem o suficiente para que aquela que amo fique bem? Se alguma lágrima brotar, como brota em meio peito, a dor pode dilacerá-la. E quanto a mim, já não importa.

"O essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração" (Antonie de Sant-Exupéry)

Difícil é acreditar na imagem projetada pelo coração, já que este nos trai, se entregando pra outro. 

O pequeno príncipe volta para sua flor, que o ama, porque ele também a ama. E esta o ama a sua maneira, porque não sabe amar de outra forma. Entregando seu aroma, a beleza de suas pétalas e seus espinhos. 

"Não devia jamais ter fugido. Deveria ter-lhe adivinhado a ternura sob seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar" (O pequeno Príncipe)



E lembra-te: 




Lembra-te também que "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"