sábado, 30 de junho de 2012

                Eu vi você. Nos outdoors espalhados pela avenida principal, refletindo nos artefatos do antiquário do centro comercial que gostávamos de frequentar. Você acreditava que comprar coisas antigas e usadas acabava deixando um pouco das outras pessoas em nós mesmos. Esquisito. Tanto tempo ao teu lado, dividindo o mesmo café, colchão e insônia, e nunca encontrei resquícios meus em você.

                Te encontrei naquele mar-de-caco-de-vidro-de-raio-de-sol que você chama o por do sol no pier. Distante, intocável, indecifrável. Cabelo desgrenhado, barba rala e eu me perguntei onde encontro meu nome talhado ao teu. Talvez isso me fizesse acreditar que um dia você sonhou teu sonho igual ao meu sonho. 
                Não sinto aquela agonia desmedida que temia, nem tampouco preocupo-me com teus retratos entre os meus papeis e os teus cds na estante. Eles não me trazem você, nem me levam. E a agonia não me perturba porque tua falta não se faz, não me ocupa. 
                Eu só te estranho. E te estranho. Estranho o tempo , o fim e o início de tudo. Estranho esses "choques de mundos" que não gerou um ambiente capaz de comportar vida. 
                Não te estranho da mesma forma que te estranhava naquelas mensagens enviadas na madrugada com trechos da cartas de Frida Kahlo à Diego. 


                Ya no extraño. Só Estranho.


sábado, 5 de maio de 2012

O amor do Pequeno Príncipe


Ele estava triste, e por isso foi injusto. Risquei tudo o que ele dizia... mas guardei o desenho, porque está tão parecido...


                   Desde agora, até as cinco da tarde, até a hora em que for dormir, estarei sozinho, porque disse a todos os meus amigos que estava muito cansado e não queria ver ninguém. A menininha para que cuidadosamente reservei meu tempo livre nem se deu o trabalho de me avisar que não viria.
                  Descubro com melancolia que meu egoísmo não é tão grande assim, pois dei ao outro o poder de me magoar. 
                   Menininha, foi com carinho que lhe dei esse poder. É com melancolia que a vejo usá-lo.



Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 27 de março de 2012

Você me bagunça



Assimila, dissimula, afronta, apronta, diz: "carrega-me nos abraços"

Lapida-me a pedra bruta, insulta, assalta-me os textos, os traços
Me desapropria o rumo, o prumo, juro me padeço com você
Me desassossega, rega a alma, roga a calma em minha travessia
Outro "porquê"
(...)
Se perder sem se podar e se importar comigo
Aprender você sem te prender comigo
(...)
Difícil precisar quanto preciso

(O Teatro Mágico)

segunda-feira, 19 de março de 2012

As razões do amor

"Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa : "A rosa não tem"porquês". Ela floresce porque floresce." Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento.

"Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo." Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus
gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra. "Amor é estado de graça e com amor não se paga." Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo.

"Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a
regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo..." Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que
faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos.
Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco." O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?

Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor - frágil bolha de sabão - não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar... Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor...

Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que é que eu amo quando amo o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: "Que é que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas
palavras de Hermann Hesse, "o que amamos é sempre um símbolo". Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra..."
- RUBEM ALVES

domingo, 18 de março de 2012

O amor acaba

Extraído de: O Amor Acaba - Crônicas Líricas e Existenciais


    O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

    Paulo Mendes Campos

sábado, 25 de fevereiro de 2012

‎"Passa tudo. Passam, diariamente, tratores metafóricos por cima de você. Até que todos os

dramas do passado tenham ficado para trás."


(Natália Raposo)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Solos



Tú me tienes olvidado, no responde al llamado, me condenas a la nada. Mira corazón cúanto te extrano...
           
Olho para todos os lados, avidamente, detidamente. Procuro em cada rosto traços do seu. Em cada passo que ouço no dobrar da esquina, ouço o som do seu incluso. Risos soltos pela praça, faróis acesos na avenida, cheiro solto atordoante que gruda e não larga. Tudo te traz. Tudo me remete a você.
            Tenho todos os espaços do meu ser preenchidos pela sua ausência. Preenchidos pelas lembranças das ligações que se perderam pelo tempo e não foram completadas, pelas mensagens que por algum motivo não foram enviadas, pelo boa noite que não mais foi desejado. Pelos planos que não foram concretizados. Tudo está ao contrário, sem nexo, solto no espaço, esperando sua invasão. Não há palavras, nem ditas, nem escritas, só silêncio, ensurdecedor.
            Passo cada noite e viro a madrugada pensando em te ligar pra compensar aquela chamada que não foi atendida, e te escrevo compulsivamente, te faço rabiscos, choro, borro todos, enxugo as lágrimas que não secam com o sol que nasceu. Respiro fundo. Peço forças pra abandonar a cama e te procurar mais uma vez nas redes, nas ruas, no meu peito. A cada frustrada busca, me aperta mais o coração e a garganta desatina a doer. E desejo, desejo muito, absurdamente te ver de novo e me jogar nos seus braços pra sentir o abraço que tanto necessito.
            Tu me vens jogando ao esquecimento. Nada posso fazer, mas saiba que dói. E essa madrugada está sendo mais traiçoeira e longa do que a passada e ao amanhecer, mais uma vez não terei forças, serei que não terei, por que dói. Muito. E tenho medo de dia após dia não estar no que você vê, que, diferentemente de mim, não te vejo por você não me permitir. E você vai se perder, pode se perder, até mesmo entre o que você busca paralelamente e contraditoriamente a busca que faço por ti. E tanto tempo terá passado quando essas procuras se tornarem cotidianas que minha ausência se fará presente, e dela não brotarão saudades. Você rasga o pulso pra doar sangue em troca de algo novo que traga vida. Eu rasgo o peito aos gritos pra que você saia de mim e eu possa voltar a ficar em paz.
              (...)
            A madrugada começa a se revoltar, cheia de sonhos quebrados e dor. Contorço-me na cama, dou voltas no quarto, me seguro a nada. E minha vida se arrebenta no ar. E à chuva que continua inundando a noite, peço que me afogue para não pensar em ti. Ou que aconteça um milagre que me leve ou te traga de volta. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

...





Meu coração era um  pêndulo entre ela e a rua.


Não sei com que força me livrei de seus olhos, 


me safei de seus braços.


Ela ficou, nublando de lágrimas sua angustia 


atrás da chuva e do cristal.


(Che Guevara)