Senhora minha muito amada, grande padecimento tive ao escrever-te estes malchamados sonetos e bastante me doeram e custaram mas a alegria de oferecê-los a ti é maior que uma campina. Ao propô-lo bem sabia que ao costado de cada um, por afeição eletiva e elegância, os poetas de todo tempo alinharam rimas que soaram como prataria cristal ou canhonaço. Eu, com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância e assim devem alcançar teus ouvidos. Tu e eu caminhando por bosques e areais, por lagos perdidos, por cinzentas latitudes recolhemos fragmentos de pau duro, de lenhos submetidos ao vaivém da água e da intempérie. De tais suavíssimos vestígios construí com machado, faca, canivete, estes madeirames de amor e edifiquei pequenas casas de 14 tábuas para que nelas vivam teus olhos que adoro e canto. Assim estabelecidas minhas razões de amor, te entrego esta centúria: sonetos de madeira que só se levantaram por que lhes deste a vida. [Outubro de 1959]Belíssima dedicatória de Pablo Neruda à sua senhora Matilde Urrutia.
Nesse pequeno espaço, dedico a minha doce amiga Ana Emília, já que foi a mesma que me fez apaixonar por esses versos.

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