E ela estava assim: Perdida. Não que realmente estivesse perdida em função do tempo e espaço. Estava perdida em si. Dentro de si. Cheia de confusões e aversões. Cheia de medo! Tá, para! Ela pensou. Tá tudo errado! Eu tô ao avesso! Preciso me tomar! Arrumou a mochila com seu casaco xadrez, dois vestidos, Objetos e peças íntimos, a inseparável maquilagem, o resto do perfume que ganhara dele, o esmalte vermelho que tanto ama, seu necessário Ipod, os dois livros preferidos de caio F e chocolates. Pensou em levar a Patita, e chegou até a colocar também o celular. Mas os trocou pela carteira que continha somente os documentos e o resto do dinheiro. Preferiu tirar os cartões, pois sabia que eles a achariam assim que os usassem. Suspirou, olhou pro quarto, e se foi. Preciso olhar o mundo com outros olhos... Quais seriam esses olhos? Ela não fazia idéia, mas, sabia que precisava enxergar por eles. Toda posse é temporária... Refletiu. Mas nunca o tratei como posse. Como pôde então, passar a pertencer a outra? Isso a consumia. E, se diferente eu fosse, será que eu teria sido amada por ele? Nunca saberemos.
Chegou na parada de ônibus. Vou para o litoral. Morarei por lá, como sempre quis. E veio a memória a noite em que os dois decidiram morar juntos em uma praia, comprar uma prancha, dormir abraçados, e nos dias de lua, tocar violão. E viver felizes. Droga! Não trouxe meu violão! Lembrou. Sentou no meio fio, e mais uma vez suspirou. Dessa vez dando mais ênfase a tristeza do que a saudade ou o cansaço. Tirou o Ipod da mochila, colocou na playlist1 e passou uma por uma as músicas, buscando a que fosse perfeita para servir de fundo musical no momento. E encontrou. E chorou. E cantou. Cantou alto, com o coração. E cantou alto, com a alma. E chorou mais uma vez. E a música acabou. E ela continuou a cantá-la, embora tocasse outra completamente diferente no seu aparelho. "Triste é não chorar! Sim, eu também chorei. E não não há nenhum remédio pra curar essa dor que ainda não passou, mas vai passar. A dor que nos machucou" E chorou. E levantou-se. Viu um ônibus aproximando-se. Não o que ela esperava. Reconhecendo-o, os planos do momento se foram, e meio que automaticamente, subiu os conhecidos degraus escalados todos os dias. Tomou um assento, fechou os olhos e decidiu só abri-los quando o ônibus parasse. Durante o trajeto, conseguiu afundar sua mente num pretume que a impossibilitava de pensar em tudo que ocorreu. E assim, seguiu-se.
O destino a esperava. Decisões teriam de ser tomadas. Mas não ali, não naquela hora. Um pouco mais tarde, talvez. Redirecionou seu raciocínio as aulas do dia, que agora assistiria, já que estava indo rumo a faculdade, desejando que todas fossem de filosofia. O ônibus parou, abriu os olhos, sorriu e cantarolou uma última vez "Que ainda não passou, mas vai passar..." enquanto uma última lágrima escorria pelo seu rosto indo beijar sua boca.

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